top of page

Confiança na comunicação: nem tudo que parece natural nasceu natural

  • Foto do escritor: Isadora Damiano
    Isadora Damiano
  • 26 de jul.
  • 3 min de leitura

Às vezes alguém me pergunta se eu sempre tive facilidade para gravar vídeos. Ou então comenta, com certa surpresa, que eu pareço muito natural falando para a câmera. E eu quase sempre respondo brincando: é porque eu finjo muito bem.


Mas essa brincadeira tem um fundo de verdade. Não no sentido de fingir algo que não existe nem criar um personagem para uma autoridade que não se sustenta. Isso, para mim, entra em outro lugar que é um lugar que não me interessa e que, cedo ou tarde, a comunicação entrega.


Falo daquela confiança na comunicação que muitas vezes não aparece pronta, mas que você precisa acessar mesmo assim. De fazer antes de se sentir completamente confortável ou gravar mesmo achando estranho ouvir a própria voz (e se você nunca achou estranho, me conta o segredo!). De ocupar um espaço que talvez ainda pareça grande demais, mas que você sabe que precisa começar a ocupar porque ele é só seu.


Você já deve ter escutado a frase "finja até se tornar". Ela sempre me interessou e também sempre me deixou um pouco desconfiada porque ela pode ser usada sem consciência nenhuma. Pode virar máscara e ser desculpa para parecer algo que a pessoa não vai conseguir sustentar de verdade. Mas existe uma leitura dessa frase que quase ninguém menciona: a de treino. De ensaio com intenção.


Às vezes, agir como uma pessoa mais segura é justamente o primeiro passo para começar a construir essa segurança. Você não está enganando ninguém. Está ensinando seu corpo, sua voz, sua postura a ocuparem um lugar que a sua mente ainda está aprendendo a aceitar. E isso, com o tempo, para de parecer fingi­mento.


Há alguns dias, uma colega minha foi chamada ao palco em um evento para falar rapidamente sobre o trabalho dela. Antes de ela ir, eu disse: fala como se a gente estivesse desesperada para comprar de você, não como se você estivesse desesperada para vender. Ela tem um trabalho excelente. O que faltava não era conteúdo, era a postura de quem já sabe disso. Às vezes é só isso.


Quando li Hábitos Atômicos, uma frase ficou grudada na minha cabeça:


"O processo de mudança de comportamento sempre começa com a consciência."

Lembro que parei na mesma hora, peguei um papel e comecei a anotar algumas coisas que eu fazia sem perceber. Tenho esse papel até hoje. Eram coisas simples, até meio óbvias mas foi curioso perceber como a gente acredita que sabe tudo sobre si mesma e, quando para alguns minutos para observar com atenção, descobre que muita coisa estava funcionando no automático.


livro aberto

A gente sabe o que faz, mas nem sempre entende o que está repetindo.


E comunicação tem muito disso. A forma como você fala do próprio trabalho pode virar hábito sem que você tenha escolhido esse hábito. O jeito de se apresentar. A escolha de suavizar uma opinião, ou não. A necessidade de explicar demais antes de afirmar qualquer coisa, como se a afirmação precisasse de advogado. Tudo isso vai criando uma leitura sobre você.


É aqui que a conversa encontra o posicionamento e eu não estou falando naquele sentido de frase pronta e nicho bem definido. Falo do posicionamento que nasce da repetição de certos sinais. Daquilo que as pessoas começam a associar a você porque aparece com frequência suficiente para ser percebido. Se você se comunica sempre como quem pede licença, isso constrói uma percepção. Se fala do seu trabalho com cautela demais, isso também constrói, mesmo que você nunca tenha decidido conscientemente construir isso.


Acho que muita gente espera sentir confiança para se posicionar, mas talvez parte da confiança venha justamente do exercício de se posicionar. De começar a praticar, com consciência, a presença que você deseja construir.


repetição

Pelo menos comigo foi assim. A confiança nunca chegou pronta. Em muitas situações eu precisei agir antes de me sentir completamente segura. Gravar sem gostar tanto do resultado. Dar aula sabendo que depois eu enxergaria pontos para melhorar. E foi na repetição dessas coisas que algo foi se assentando. Não como certeza, porque eu ainda não tinha, mas como familiaridade. Como reconhecimento.


Nem tudo que parece natural nasceu natural.


E se a confiança não for algo que você encontra pronta dentro de si, mas sim uma consequência do que você aceita repetir até começar a reconhecer como seu?

 
 
 

Comentários


bottom of page