Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é
- Isadora Damiano
- 19 de jun.
- 3 min de leitura
Recentemente me deparei novamente com um trecho de um poema do Paulo Leminski:
"isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além".
E passei mais tempo pensando nele do que gostaria de admitir.
Talvez porque ele tenha encostado em uma pergunta que costuma deixar muita gente desconfortável: quem é você?
E as respostas são sempre as mesmas quando essa pergunta aparece em uma entrevista, em um grupo de networking ou até em uma roda de conversa. A maioria das pessoas responde falando da profissão, da família e algumas contam até onde moram.
E quase todas acabam descrevendo os papéis que ocupam na vida.
Eu mesma me lembro de responder assim em entrevistas de emprego quando trabalhava no mercado corporativo. Era um dos momentos mais desconfortáveis porque, apesar de esperado, parece que a resposta nunca vinha com naturalidade ou segurança. Acabava respondendo o que eu fazia e onde estava. Mas se você mudar de cidade, continua sendo você. Mudou de emprego? Ainda assim, é você. Então o que sobra quando tiramos os títulos, os cargos e as funções? Acho que é aí que a conversa fica interessante.
Vivemos em uma época que valoriza muito a evolução. Aprender mais e conquistar mais. E eu não vejo problema nenhum nisso. Gosto de estudar, de me desenvolver e de mudar de ideia quando encontro razões melhores para pensar diferente. Inclusive, acho que essa é uma grande qualidade minha que eu poderia responder nessa pergunta! Mas existe uma diferença entre evoluir e viver procurando uma nova versão de si mesma.
A impressão que tenho é que muitas pessoas passam anos tentando descobrir quem deveriam ser, quando talvez valesse a pena prestar mais atenção em quem já são e também no que carregam há muito tempo. Quais interesses permanecem, mesmo depois de muitos anos ou até décadas? Como é sua forma de enxergar determinadas situações? Quais interesses que pareciam perdidos mas voltaram?

Quando olho para trás, percebo que já tive profissões muito diferentes. Trabalhei em logística, fui fotógrafa, me tornei estrategista de comunicação. Os contextos mudaram completamente. Ainda assim, algumas características aparecem em todas essas fases. Eu continuo sendo uma pessoa muito curiosa, continuo gostando de estar em ambientes com pessoas diferentes entre si e que trazem mais riqueza para um grupo e até minha necessidade de encontrar padrões e traduzir coisas complexas em algo mais claro.
Eu não precisei criar essas características porque elas já existiam.
No meu trabalho, vejo muitas pessoas procurando uma nova identidade para comunicar melhor. Como se existisse uma versão mais interessante delas esperando para ser construída e na maioria das vezes, o que encontro é outra coisa. Pessoas que se acostumaram tanto a olhar para fora que perderam o hábito de olhar para dentro. Elas sabem exatamente o que os concorrentes fazem, conhecem as tendências mas têm dificuldade para reconhecer aquilo que faz parte da própria história.
E isso tem um impacto enorme na comunicação.
Porque comunicar não é apenas transmitir informação, mas permitir que as pessoas percebam quem está por trás dela.
Talvez por isso alguns profissionais sejam tão difíceis de copiar. Porque existe uma coerência entre a forma como pensam, trabalham e se apresentam ao mundo.
Quando leio o poema do Leminski, é isso que fica comigo. A vida provavelmente vai nos levar para lugares que hoje nem imaginamos. Mas existe algo muito valioso em reconhecer aquilo que continua viajando conosco enquanto todo o resto muda. Talvez esse seja um dos trabalhos mais difíceis da vida. E talvez seja exatamente por isso que ainda possa nos levar além.

Excelente profissional, com conteúdo que muda nossa visão de enxergar o trabalho e a vida. Vale apena!